Símbolo da profissão contábil
Símbolo
dos mais antigos, cuja imagem já se pode
encontrar gravada na taça do rei Gudea de
Lagash, 2.600 anos a.C., e sobre as tábuas
de pedra denominadas, na India, nagakals. As
formas e as interpretações do caduceu são
muito mais variadas do que geralmente se
crê, não se excluem, necessariamente. O
caduceu emblema de Hermes (Mercúrio) é uma
vareta em torno da qual se enrolam, em
sentido inverso, duas serpentes. Assim, ela
equilibra os dois aspectos - esquerda e
direita, diurno e noturno do símbolo da
serpente. A serpente possui esse duplo
aspecto simbólico: um deles, benéfico, o
outro, maléfico, dos quais possivelmente o
caduceu apresenta o antagonismo e o
equilíbrio; esse equilíbrio e essa
polaridade são, sobretudo, os das correntes
cósmicas, representadas de maneira mais
geral pela dupla espiral *. A lenda do
caduceu relaciona-se ao caos primordial
(duas serpentes lutam) e à sua polarização
(separação das serpentes por Hermes), sendo
que o enrolamento final ao redor da vareta
realiza o equilíbrio das tendências
contrárias em torno do eixo do mundo, o que
leva por vezes a se dizer que o caduceu é um
símbolo de paz. Hermes é o mensageiro dos
deuses e, também, o guia dos seres em suas
mudanças de estado, o que vem a corresponder
justamente, observa Guénon, aos dois
sentidos ascendente e descendente das
correntes figuradas pelas duas serpentes. O
mesmo simbolismo exprime-se através do duplo
enrolamento ao redor do bastão bramânico,
pelo das duas nadi do tantrismo em volta de
sushumna, pela dupla circumambulação de
Izanági e Izanâmi em torno do pilar cósmico,
antes da consumação de sua união; e, melhor
ainda, por Fu-hi e Niu-kua, unidos por suas
caudas de serpente e intercambiando seus
atributos do compasso * e do esquadro * (BURN,
GUET, GUES, SAIR, SCHI). Uma outra
interpretação salienta o simbolismo de
fecundidade. Formado por duas serpentes
acasaladas sobre um falo em ereção, o
caduceu parece ser uma das mais antigas
imagens indo-européias. Pode-se encontrá-lo
associado a numerosos ritos, tanto na Índia
antiga como na moderna; na mitologia grega,
como emblema de Hermes; depois, entre os
latinos, que o transferem a Mercúrio.
Espiritualizado, esse falo de Hermes, o
psicopompo penetra - segundo a expressão
usada por Henderson, discípulo de Jung (JUNS,
156) - do mundo conhecido no desconhecido, à
procura de uma mensagem espiritual de
liberação e de cura. Como se sabe, o caduceu
é, hoje em dia, o emblema universal da
ciência médica. Todavia, o caduceu só
adquire seu sentido completo na época grega,
quando as asas passam a encimar as duas
serpentes: a partir desse momento, o símbolo
torna-se uma síntese ctono-uraniana,
transcendendo suas origens, o que leva à
evocação dos dragões alados chineses e da
representação do deus asteca Ouetzalcoatl, o
qual, após seu sacrifício voluntário,
renasce, através de uma ascensão celeste,
sob a forma da serpente emplumada. A vareta
mágica que representa o caduceu e que,
geralmente, é composta de um bastão ao redor
do qual se enrolam duas serpentes, evoca
cultos muito antigos na bacia do mar Egeu,
da árvore e da terra que dá o sustento às
serpentes (SECG, 278). Efetivamente, o
caduceu hindu associa-se à árvore sagrada O
caduceu mesopotâmico apresenta uma vareta
central. Ela parece ser exatamente a
lembrança da árvore Tem-se portanto o
direito de considerar a vareta do caduceu de
Hermes (e também, aliás, o bastão do caduceu
de Esculápio) como o símbolo da árvore,
associado à divindade, morada ou substituto
desta. O fato de que essa vareta tenha
tomado, posteriormente, uma outra
significação - o poder divinatório ou o
poder de curar - em nada altera seu aspecto
de símbolo da eficiência da divindade da
árvore (BOUA, 166). Para Court de Gébelin,
que cita Atenágoras e Macróbio (Ambrosius
Macrobius Theodosius, escritor lat., ativo
no ano 400 da era cristã), o bastão
simboliza o equador, as asas simbolizam o
tempo, e as duas serpentes, macho e fêmea,
representam o Sol e a Lua que, no decurso de
um ano, percorrem a eclíptica sobre a qual
estão por vezes separados, por vezes unidos.
Essa interpretação convém sobretudo ao papel
de Hermes, considerado como o pai da
astronomia e da agricultura (BOUA, 168). Por
seu lado, os alquimistas também não deixaram
de dar uma interpretação do caduceu. É o
cetro de Hermes, deus da alquimia. Recebido
de Apolo em troca de uma lira de sua
invenção, o caduceu é formado por uma vareta
de ouro rodeada por duas serpentes. Estas
representam, para o alquimista, os dois
princípios contrários que se devem unificar,
quer sejam o enxofre e o mercúrio, o fixo e
o volátil, o úmido e o seco ou o quente e o
frio. Esses princípios conciliam-se no ouro
unitário da haste do caduceu que surge,
portanto, como a expressão do dualismo
fundamental que ritma todo o pensamento
hermético e que deve ser reabsorvido na
unidade da pedra filosofal (VANA, 18-19).
Essa interpretação insere-se num conceito
que faz do caduceu um símbolo de equilíbrio
por integração de forças contrárias:
representaria o combate entre duas
serpentes, do qual Hermes seria o árbitro.
Esse combate pode simbolizar a luta interior
entre forças antagônicas, de ordem biológica
ou de ordem moral, que compromete a saúde ou
a honestidade de um ser. E assim é que,
entre os romanos, por exemplo, o caduceu
representa o equilíbrio moral e a boa
conduta: o bastão representa o poder, as
duas serpentes, a prudência, as duas asas, a
diligência, e o capacete, os pensamentos
elevados. Todavia, neste caso a
interpretação não ultrapassa de modo algum o
nível do emblemático. O caduceu reúne também
os quatro elementos da natureza e seu valor
simbólico: a vareta corresponde à terra, as
asas, ao ar, e as serpentes, ao fogo e à
água. No que concerne a estas últimas,
porém, não é apenas o seu rastejar
serpenteante que as faz semelhantes ao
movimento ondulatório das vagas e das chamas
ou que as assimila à água * e ao fogo *: é
sua própria natureza, ao mesmo tempo
ardente, pela mordida venenosa, e quase
líquida, pela fluidez de seus corpos - o que
as torna fontes de vida e de morte a um só
tempo. Segundo o esoterismo budista,
particularmente o ensinamento tântrico, o
bastão do caduceu corresponde ao eixo do
mundo, e as serpentes, à Kundalini, essa
força que dorme enroscada em espiral na
parte inferior do dorso humano, e que se
eleva através dos chakras sucessivos até
acima da fontanela (ou moleira), símbolo da
energia pura, que anima a evolução interior
do homem. Efetivamente, o que define a
essência do caduceu é a própria composição e
a síntese de seus elementos. Ele evoca o
equilíbrio dinâmico de forças opostas que se
harmonizam para constituir uma forma
estática e uma estrutura ativa, mais altas e
mais fortes. A dualidade das serpentes e das
asas mostra esse supremo estado de força e
de autodomínio que pode ser realizado tanto
no plano dos instintos (serpentes) quanto no
nível do espírito (asas) (CIRD, 34-36). No
entanto, o caduceu permanece como o símbolo
da enigmática complexidade humana e das
possibilidades infinitas de seu
desenvolvimento. O atributo de Hermes *
(Mercúrio *) é feito de uma vareta que é a
vara de ouro, ou a árvore da vida, em torno
da qual se enrolam simetricamente, em forma
de 8, duas serpentes *. Hermes , diz Homero,
segura a vara por meio da qual ele embruxa a
seu bel-prazer os olhos dos mortais ou
desperta aqueles que dormem (Ilíada, XXIV,
343-344). A vara * poderia lembrar, ainda, a
origem agrária do culto de Hermes e os
poderes mágicos que ele detém; as duas
serpentes evocariam o caráter originalmente
ctoniano desse deus, capaz de descer aos
Infernos e de para lá enviar suas vítimas,
ou, conforme sua vontade, de retornar dos
Infernos trazendo consigo de volta à luz
certos prisioneiros. Pausânias assinala um
culto que era prestado ao Hermes negro e ao
Hermes branco - os dois aspectos, ctoniano e
uraniano, nefasto e favorável, do mesmo
deus. As serpentes do caduceu designam essa
ambivalência, que é a mesma ambivalência do
homem. Finalmente, de acordo com a
interpretação simbólica inspirada por sua
ética biológica, e de acordo com a
interpretação mitológica que atribui o
caduceu a Asclépio (Esculápio), pai dos
médicos e futuro deus da medicina porque
sabia utilizar as poções para curar os
enfermes e ressuscitar os mortos, Paul Diel
explica o caduceu da seguinte maneira: a
maça * (clava), que é a arma contra a
banalidade, transformou-se em bastão-cetro
*, símbolo do reino espiritual sobre a vida
terrena, símbolo do reinado do espírito
sobre o corpo, e a serpente-vaidade (a
negação do espírito, a exaltação
imaginativa, princípio essencial de todo
desregramento malsão) derrama seu veneno na
taça salutar (DIES, 230). É toda a aventura
da medicina * que se desenrola no mito de
Asclépio e se resume no caduceu: a
verdadeira cura e a verdadeira ressurreição
são as da alma. A serpente enrosca-se em
volta do bastão, que simboliza a árvore da
vida, para significar a vaidade domada e
submissa: seu veneno transforma-se em
remédio, a força vital pervertida reencontra
o caminho certo. A saúde é: a justa medida,
a harmonização dos desejos (a simetria das
espirais das serpentes), a ordenação da
afetividade, a exigência de
espiritualização-sublimação, (que) presidem
não apenas à saúde da alma, (mas também)
co-determinam a saúde do corpo (DIES, 233).
Essa interpretação faria do caduceu o
símbolo privilegiado do equilíbrio
psicossomático.
